As mulheres e a Construção Civil
Marlise Maria Fernandes
Articuladora Institucional do Projeto Mulheres Construindo Autonomia na Construção Civil/RS
O crescimento significativo do ramo da construção civil desnudou a inexistência de projetos consistentes de qualificação profissional massiva. Vivemos hoje em um mundo que reclama por projetos de educação profissional e continuada para todas as áreas de atuação, qualquer que seja o nível de ensino. É importante darmo-nos conta de que a qualificação precisa estar na pauta do dia a dia dos canteiros de obra. As várias faces da mesma realidade apontam não somente para o incremento dos postos de trabalho, mas, também, para esta necessidade constante de formação, atualização e requalificação de pessoas, inclusive em função de novas e fundamentais tecnologias cada vez mais indispensáveis.
Nesse momento, com a sutileza e ousadia que lhes é peculiar, as mulheres vão, com força e determinação, galgando postos de trabalho na construção civil e destacando-se por suas habilidades com os detalhes, com os acabamentos. Enfim, pode-se dizer que várias das necessidades do setor, antes desatendidas ou minimizadas, encontram respostas adequadas em corajosas mulheres que, pioneiramente, já “enfeitam” as obras com profissionalismo. Ser mulher na construção civil tornou-se um orgulho para o gênero feminino. Ter mulher no canteiro de obra, um diferencial estratégico e competitivo para as empresas.
Depoimentos de mestres de obras e empreiteiros que antes achavam que não fazíamos falta, atualmente, nos enchem de orgulho! E são fartos os elogios. À frente de projetos que preparam a mulher para os desafios da construção civil há algum tempo, já escutamos frase do tipo “elas humanizaram a minha obra”. Também já nos foi relatado que “… no início, os homens apostavam que as mulheres não dariam conta das tarefas nada delicadas de uma obra, mas elas passaram no teste! Duas semanas depois, eles já as tratavam com respeito e incorporam atitudes antes inexistentes, tais como o uso adequado dos banheiros, da expressão “por favor,” a qual passou a ser escutada com freqüência na labuta diária”.
São azulejistas, pintoras, marceneiras, até mestres de obras… Tantas são as histórias, as conquistas, uma a uma, sempre, a cada tempo, a primeira vez: da carteira assinada, do salário fixo, da obra concluída, da empreitada entregue, da refeição preparada para os filhos pelo marido, da compra com o “suor do próprio rosto”. Cada um, um a um, o primeiro de muitos degraus na construção de uma nova mulher.
Pioneiras! Da mesma forma que lutamos pelo voto, pelo direito a trabalhar fora, pelo direito a amamentarmos nossos filhos, pelo direito ao divorcio, pelo direito a não ser devolvida por casar não virgem, agora são estas mulheres que lutam pelo direito de serem profissionais da construção civil, e com qualificação! A oportunidade está posta, e vê-se em cada canto grupos e mais grupos de mulheres que respondem “presente” ao chamado de agora. Depois, tão logo aprendidos os primeiros detalhes, macetes e lições da nova profissão, olhos ávidos de vida renovada lançam-se à frente, buscando a tão sonhada vaga. E lá se vão as mulheres pela jornada da reconstrução de si mesmas, topando uma empreitada, pesquisando nas letras pequenas dos “classificados” para, então, acharem-se na vida.
Firma-se o lugar ao sol e a autonomia financeira transforma-se em liberdade, rompem-se as amarras da submissão, espatifam-se os grilhões da violência ou da exclusão não somente delas, mas de filhos, irmãs, pais…
Os recursos viabilizados pelo Governo Federal, por ONGs comprometidas com a transformação da sociedade e, também, pela iniciativa privada, por meio de empresas que já ultrapassaram o discurso da responsabilidade social para concretizá-la na prática de seus investimentos, embora não sejam vultosos, têm a natureza de toda a fundamentalidade absoluta: são essenciais. Assim abrem as porteiras e os canteiros de obra preparam algumas das milhares de brasileiras que se encaminham para a nóvel profissão. Que desabem as barreiras, obra é lugar de mulher em construção.
Mulher para toda obra
Ao colocar a mão na massa, elas rompem a última barreira que as separava dos homens no mercado de trabalho
Claudia Jordão
No histórico ano de 1968, feministas fervorosas se reuniam em praça pública para queimar sutiãs e exigir a igualdade entre os sexos. Elas já haviam conquistado o direito ao voto e ao trabalho, mas muito ainda estaria por vir. Agora, 40 anos depois, as mulheres parecem ter rompido a última barreira que as separava dos homens, pelo menos em âmbito profissional. O estudo “Boletim Mulher e Trabalho”, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, mostra que o sexo feminino fincou bandeira em território tradicionalmente masculino, o da construção civil. De setembro de 2007 a abril de 2008, a mão de obra feminina cresceu 15% no setor, enquanto a masculina foi reduzida em 6%. “Do total de brasileiras na formalidade, 0,7% está na construção civil”, diz Luana Pinheiro, subsecretária de planejamento da secretaria. “São cerca de 69 mil mulheres nas seis principais regiões metropolitanas do País.” O outrora sexo frágil agora pega pesado como pedreiras, carpinteiras, azulegistas, pintoras, encanadoras e eletricistas.
A rotina na obra do empreendimento O2 Corporate, um prédio de apartamentos na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, por exemplo, incorporou flagrantes da delicadeza feminina ao tradicional entra e sai de caminhões, às pilhas de plantas e ao barulho constante. Dos 135 funcionários, sete se destacam pelas unhas feitas, brincos e cabelos longos presos em coques debaixo do capacete. São as carpinteiras de fôrma, responsáveis por fazer e instalar moldes de madeira para concreto e pela segurança dos funcionários. A presença de mulheres em território marcado pela testosterona, no entanto, ocorre muito mais por necessidade do que por opção. Aos 44 anos, casada e mãe de uma adolescente, a carioca Lecticia Cordeiro é carpinteira há quatro meses. Por nove anos trabalhou em uma rede de farmácias e, em três deles, foi gerente. Perdeu o emprego e não conseguiu recolocação. Chegou a trabalhar como doméstica, mas se sentiu insatisfeita com o salário mínimo que recebia e com a rotina que levava. “Tenho orgulho de ser pioneira em meu trabalho”, diz ela. “As mulheres eram criadas para cuidar da família e da casa, mas elas são boas em se reinventar, especialmente nas adversidades.” A maior dificuldade que enfrentou foi a dureza da lida. Sua vida é carregar madeira, serrar, pregar, andar em terreno instável e subir e descer escadas. “Chego em casa quebrada”, diz. “O lado bom é que os músculos das minhas pernas estão definidos.” Ela, porém, não abre mão de seu lado feminino. “Esses dias martelei o dedo e dei um chilique.”
As mulheres estão longe de ser realidade em toda obra. Ao mesmo tempo que sua presença é frequente em cidades como Rio de Janeiro, Canoas (RS) e Fortaleza (CE) – onde há projetos sociais que lhes dão treinamento profissional -, é praticamente nula em São Paulo. Mas como aconteceu em outros bastiões da masculinidade, como a carreira militar ou a aviação civil, a tendência não tem volta e é questão de tempo para que elas se tornem cada vez mais constantes. Quem defende o argumento é a engenheira carioca Deise Gravina, 52 anos. Ela é a idealizadora do Projeto Mão na Massa, que desde 2007 já formou 143 encanadoras, pintoras, carpinteiras e pedreiras, em parceria com o Senai. “Dessas, 70% estão empregadas com carteira assinada”, orgulha-se. Para ela, que há 30 anos pisa em canteiros de obras, a revolução feminina na construção civil acontece na melhor hora, pelo menos no Rio. “O mercado está aquecido, especialmente por causa das obras do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento – e da Copa do Mundo”, diz.
A modernização de maquinários e materiais também foi fundamental para que a brecha para a entrada do sexo feminino fosse aberta. “Atualmente, a força física não é tão necessária”, diz Deise. “Antes, era preciso misturar cimento, areia e brita para fazer o concreto, um esforço enorme. Hoje, geralmente, ele chega pronto na obra”, explica. A construtora Cofix é entusiasta do trabalho das mulheres: são 15 carpinteiras em quatro obras. “Elas são mais detalhistas, organizadas e limpas e isso influencia, inclusive, os homens”, diz Denise Rodrigues, diretora administrativa da Cofix. Há empresas que descobriram como tirar o melhor de cada sexo. A saída foi organizá-los em duplas de trabalho. Por exemplo, o homem lixa e a mulher pinta. “Enquanto eles ficam com o trabalho pesado, elas se dedicam ao acabamento final”, diz o químico Fabrício Zanotta, assistente de contas da PPG Tintas, que colabora no projeto Mulheres em Construção, que desde 2006 já capacitou 240 moças de Canoas (RS) para a construção civil.
Até pouco tempo atrás, os peões estavam acostumados a ver mulheres apenas do lado de fora do canteiro de obras, de onde eram saudadas com gracejos descorteses. Talvez por isso a adaptação da operária Kelly Romena tenha sido tão complicada. “No início, assoviavam e mexiam comigo”, conta. “Vira e mexe o mestre de obras tinha de intervir e pedir respeito.” Aos 25 anos, a ex-recepcionista aprendeu a se impor. “Hoje me respeitam, mas nem todos entendem minha escolha”, diz. “Falam que eu deveria ser modelo.” Feminina, ela deixa a vaidade de lado no trabalho. Mas, para não embrutecer, faz aulas de dança do ventre uma vez por semana. Porém, após saltar a barreira da profissão, elas esbarraram noutra velha distorção. Segundo a pesquisa, as mulheres ganham 80% do salário inicial dos homens. Uma injustiça que pune a ousadia.
Profissionais na obra
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Segundo reportagem do Jornal de Brasília “a construção civil está utilizando a mão-de-obra feminina para fazer acabamentos, montar azulejo, rejuntar e limpar. ‘Elas são mais organizadas e caprichosas. Não deixam bagunça’, diz Rodrigo Greco, engenheiro responsável por um prédio em Águas Claras, construído pela ACNT”.
Em matéria veiculada no Globo Comunidade as profissionais garantem que seu trabalho é muito mais bonito que o dos homens, por se preocuparem com todos os detalhes. Maria dos Anjos era empregada doméstica e optou pela construção civil. “Minha vizinha trabalhava na obra e me indicou para o serviço. Como doméstica, eu era mais discriminada, tinha mais obrigações e não era tão respeitada”.
No Rio de Janeiro Raquel ensinou técnicas de segurança para os operários que construíram um edifício no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste, do qual Elissandra foi contratada para cuidar do Sistema de Gestão da Qualidade. Paula foi a técnica de instalações e cuidou de toda a parte elétrica e hidráulica da obra. A construtora responsável recebeu o certificado de qualidade ISO 9001 por esta construção.
Os operários as respeitam, “tanto como mulheres quanto como profissionais”, diz Raquel. “Meu pai me deu apoio para trabalhar na construção civil, porque viu que estou à frente de mulheres que têm preconceito com determinadas profissões”, diz Elissandra. “Inicialmente meu pai se espantou, mas depois se acostumou com a idéia”, acrescenta Paula, ressaltando que na construção civil o salário é bom.
Em Portugal, o jornal Luso Mundo recomendou “que ninguém se admirasse se um dia destes observar mulheres a trabalhar nas obras. Elas andam a aprender. Oito estão a freqüentar o curso de construção civil e constituem metade da turma em formação”. Nascida em S. Tomé, Luísa Pereira, 31 anos, disse que “meu pai não acreditou quando lhe telefonei a dizer que estava a tirar um curso para ir trabalhar para as obras. Mas acabou por incentivar-me, pois quero aprender o suficiente para, um dia, fazer a minha casa e para ir trabalhar numa empresa de construção civil”.
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| Pioneiras |
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Em novembro de 2005 a biblioteca central da Universidade de Brasília apresentou mostra que retrata a participação feminina na construção de Brasília. A pesquisa e as fotos estão no acervo do Núcleo de Estudos da Cultura, Oralidade, Imagem e Memória, da universidade.
Este acervo resgata e preserva a história contada por pessoas que trabalharam na construção de Brasília, ou que moravam na região antes do Distrito Federal. A mostra enfatizou a presença das mulheres no início da cidade, em meio à construção civil e ao longo dos acampamentos transformados em vilas e cidades.
A partir do depoimento de mulheres foram retomadas imagens de pioneirismo e de trabalho na construção civil, de convívio e de ajuda nas comunidades, de conflitos e de lutas. São materiais educativos e culturais sobre a cidade, na ótica de pessoas comuns, nem sempre consideradas como construtoras da história, enfocando o papel das mulheres na história de Brasília. |
| Mulheres na construção civil | |
| Reportagem: Élton Skartazini | |
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Notícia
Postado às 08:48 do dia 23 de Março de 2010
A Presença da Mulher na Construção Civil
Diego Araújo – Campina Grande/PB
A quebra de paradigmas quanto a participação de mulheres em trabalhos considerados masculinos tem aumentado a participação de engenheiras, arquitetas, decoradoras, eletricistas, pedreiras entre outras profissionais no canteiro de obra.
A participação e influência das mulheres na Construção Civil não se limitam apenas ao canteiro de obra. A Revista “Pequenas Empresas Grandes Negócios” apresentou uma pesquisa onde revela que 54% das compras de materiais de construção são decididas por mulheres que fazem questão de acompanhar seus maridos na escolha destes materiais para a reforma ou construção de suas casas.
Levando em conta tais fatos, o Centro de Educação Profissional da Construção Civil, do SENAI, em Bayeux tem incentivado e estimulado o ingresso de mulheres nos cursos que são oferecidos na Unidade. A prova disto é o número de mulheres que hoje são 27, matriculadas nos cursos da Instituição, o que corresponde à 25% dos alunos de aprendizagem, além das que fazem os cursos de iniciação profissional abertos à comunidade.
Neste mês de março, comemorando o dia internacional da mulher, a unidade da Construção Civil, que hoje é gerenciada por uma mulher, Patrícia Ventura, parabenizou as alunas e as colaboradoras, pela passagem da data, presenteando a cada uma com uma rosa.
Foto/Créditos: Iwlceff Jefferson.
Sistema Indústria
Como a vida das mulheres está mudando no Brasil
Fernanda Estima
ornalista e militante feminista
No Brasil, a luta política pelos direitos das mulheres e pela igualdade nas relações de gênero impulsionou a adoção de políticas públicas e leis em campos como saúde sexual e reprodutiva, trabalho, direitos políticos e civis e violência sexista. Os direitos de cidadania das mulheres e as condições para seu exercício são questões centrais da democracia, e não apenas questões das mulheres. Há avanços significativos na construção dos direitos civis e políticos das mulheres brasileiras.
O papel dos movimentos feministas foi fundamental nesse percurso. Com sua articulação e mobilização, eles foram decisivos para a elaboração de leis e políticas públicas voltadas a eliminar as desigualdades entre homens e mulheres, no espaço público e privado.
Os primeiros governos eleitos no Brasil após a ditadura e as diretrizes neoliberais impostas nacionalmente atingiram de forma drástica a vida das mulheres brasileiras: desemprego com níveis alarmantes, violência doméstica sem ação governamental, políticas de privatização de serviços que prejudicaram especialmente as mulheres (creches, sistemas de água e luz, saúde).
Em 2003, o presidente Lula criou a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres para desenvolver ações conjuntas com todos os Ministérios e Secretarias Especiais, tendo como desafio a incorporação das especificidades das mulheres nas políticas públicas e o estabelecimento das condições necessárias para a sua plena cidadania. O governo federal se empenhou para promover mais autonomia e mais cidadania para as brasileiras, transformando demandas históricas dos movimentos feministas e de mulheres em políticas públicas, e para mudar o vergonhoso panorama da violência sexista em nosso país
Uma das mais importantes ações foi o destaque dado à promoção da igualdade de gênero, raça e etnia no Plano Plurianual 2008-2011, através do enunciado do seu quarto objetivo estratégico: “Fortalecer a democracia, com igualdade de gênero, raça e etnia, e a cidadania com transparência, diálogo social e garantia dos direitos humanos”.
Implementar políticas que se chocam, cotidianamente, com a cultura dominante não é tarefa fácil e muito menos para ser enfrentada de maneira exclusiva por qualquer das esferas governamentais e de poder. É necessária participação articulada e permanente de todos os atores sociais envolvidos.
O Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM), que se encontra em sua segunda versão, é um poderoso instrumento no processo de incorporação da agenda de gênero no âmbito das políticas públicas do governo federal. Através dele, ações relativas ao avanço dos direitos das mulheres foram incorporadas nas políticas e programas desenvolvidos nos diferentes ministérios.
Em 2004, através de um processo inédito de diálogo entre governo e sociedade civil, realizou-se a I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. As suas etapas municipais e estaduais envolveram diretamente mais de 120 mil mulheres em todas as regiões do país. Em 2007, envolvendo 200 mil mulheres em todo o Brasil, realizou-se a II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. O II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres é hoje um instrumento orientador para o enfrentamento às desigualdades entre homens e mulheres no Brasil.
A diversidade que caracteriza as mulheres brasileiras demanda intervenções que considerem as especificidades e necessidades de cada grupo social. Historicamente, a intersecção de características como sexo, raça/etnia, região de origem, orientação sexual, entre outras, contribui para criar situações de maior ou menor vulnerabilidade no acesso aos serviços ofertados pelo Estado e no usufruto dos direitos constitucionalmente assegurados.
